Devia ter uns 13 ou 14 anos, um japonês, filho de uma amiga “carola” de minha mae, batia todo dia na minha porta querendo me convencer a ir à um “retiro espiritual”. Já de saco cheio resolvo dar ouvidos ao infeliz, disse a ele:_Eu vou, mas nao tenho um “puto” furado para pagar esse negócio. Aí ele me disse:_ Nao esquenta nao, eu lhe empresto e depois você me paga.
Como pagar se nao tinha de onde tirar? Mas já que ele nao iria sossegar enquanto eu nao fosse, resolvi aceitar.
O lugar era uma maravilha, uma grande fazenda com campo de futebol, piscina, cavalos, quadra de tênis, etc…
Pura farsa, a fazenda tinha tudo mas nao poderíamos utilizá-la, a cada 15 minutos tinha algo religioso na agenda, ora uma missa, ora uma palestra, mas futebol que é bom, nada.
Estava cansado, já de saco cheio e totalmente arrependido, como é que fui cair nessa? E olha que ainda nao passamos do primeiro dia. Vale citar que o retiro seria apenas de dois dias, sábado e domingo, mas para mim parecia que estava por ali fazia uns três anos, bom, quando estávamos perto do final da tarde um garoto aparece na porta do meu alojamento e avisa que faltava apenas 15 minutos para minha confissao, nao entendi e perguntei:_Falta o quê? O garoto respondeu:_Falta 15 minutos para sua confissao, o padre já está esperando._Mas eu nao marquei nenhuma confissao._Mas nós marcamos para você, afinal você é novo por aqui.
Era só o que me faltava, uma das coisas que odeio nessa vida é que tomem decisoes por mim, mas vou ter que enfrentar mais essa na vida. Cheguei na sala do padre e perguntei:_Nao tem confessionário? Aí o padre, na maior tranquilidade me diz:_Nao meu filho, nao precisa, assim poderemos conversar com mais tranquilidade.
(Pad)_Bom, pode dizer.
(Eu)_Dizer o quê?
(Pad)_Pode me contar seus pecados.
(Eu)_Pecado? Agora nao me lembro de nenhum nao, padre.
O padre compreendeu que aquela situacao nao estava nada confortável para mim e, entao, teve uma grande idéia.
(Pad)_Bom, meu filho, vamos fazer assim, eu lhe pergunto e você me responde, está bom assim? Quando foi a última vez que você se confessou?
(Eu)_Nossa, acho que faz uns seis anos.
(Pad)_Mas meu filho, hoje na missa da manha você comungou, nao pode comungar sem ter confessado.
(Eu)_Sério? Nao fazia a menor idéia. Bom, entao posso embora?
(Pad)_Nao meu filho, se você nao sabia, nao é pecado.
(Eu )_Bom, entao vamos lá, o que o senhor quer saber?
(Pad)_Bom, você tem algo que gostaria de contar? Algo que você acredita nao estar correto?
(Eu)_Bom seu padre, errado, errado, nao sei, mas vou contar algo que talvez lhe interesse. Lá em casa tem duas malas de viagem, malas grandes, cheias de revistas de mulher pelada.
(Pad)_Mas sao suas as revistas?
(Eu)_Nao, sao dos meus irmaos.
O padre entao fez a pergunta que jamais deveria ter feito.
(Pad)_Mas o que você faz com essas revistas, meu filho?
Eu estava sentado à frente do religioso, em um sofá daqueles que afunda quando você senta, depois da pergunta do padre me posicionei mais à frente, coloquei meus cotovelos sobre os joelhos, a mao direita foi ao queixo, olhei para um lado, olhei para o outro e respondi:_Bom seu padre, veja bem, essas revistas tem sua funcao.
(Pad)_Mas meu filho, você nao respondeu, você se masturba com essas revistas?
(Eu)_Direto seu padre! Todo dia.
(Pad)_Meu filho, você precisa se desfazer dessas revistas.
(Eu)_Nao posso seu padre, elas nao sao minhas, sao dos meus irmaos.
(Pad)_Meu filho, para que eu possa lhe absolver, preciso que você se arrependa, você se arrepende?
Se eu fosse me arrepender sobre isso seria o cara mais arrependido do mundo, se isso me fizesse queimar no inferno, esturricado estaria.
Bom, voltando ao assunto:(Eu)_Bom, seu padre, veja bem…Arrependido, arrependido, nao sei se é o caso, mas como se eu nao me arrepender nao poderei receber sua absolvicao, me considero arrependido.
Foi assim que a “Porteira do céu” se abriu para mim, troquei três “Aves Maria” e um punhado de “Pai nosso” por um contêiner LOTADO de pecados. Para a “Santa Igreja”, um filho perdido voltava para baixo de suas asas. O padre me liberou, passei um domingo dos “Infernos” e finalmente voltei para casa.
Retiro espiritual, nunca mais, o japonês ainda apareceu para me cobrar, dei-lhe como forma de pagamento um joguinho eletrônico quebrado, o infeliz para nao ficar no total prejuízo aceitou. Nunca mais apareceu, para alguma coisa esse retiro serviu.
Escrito por Fernando Palma
Escrito por Fernando Palma
Escrito por Fernando Palma