(Tam):_Dr.Oliveira! Chamada do palácio, é a secretária do governador.
(Dr.O):_Alô?Pois nao, eu aguardo.
(Dr.O):_Caspessin!!! Caspessin!!! Por favor meu filho, lave essas mixiricas, precisarei delas mais tarde, hoje é dia de plantao.
(Dr.O):_Bom dia governador, o que manda chefe? Ah, o senhor vai sair de férias? Que bom. Como? Quer que eu lhe faca a seguranca? Sério? Mas quem cuidará da minha regiao? Nao, o Praxedes? Da delegacia de Sao Caetano? Por favor governador, assim o senhor acaba com minha reputacao, o Praxedes nao consegue nem cuidar da regiao dele, vai fazer da minha uma bagunca. Ah é? Nao tenho opcao? Bom, se o senhor está dizendo…
Terminada a conversa, Dr.Oliveira desliga o telefone, senta em sua cadeira, olha para o nada e fica pensativo. ( PENSAMENTO ) E agora? Terei que deixar minha delegacia na mao daquele maluco do Praxedes, todo o meu trabalho de anos será jogado no esgoto, mas fazer o quê? Ordens sao ordens.
(Dr.O)_Tamarindo!!! Caspessin!!! Quero os dois aqui e agora.
Tamarindo estava em sua mesa, com os pés sobre a mesma, foleando uma revista especializada em armas de fogo, ao ouvir o chamado da lei, diz:
(Tam)_Conheco o passarinho pela cagada. Fala chefe, o que manda?
(Dr.O)_Venha aqui e me traga o menino.
Dr.Oliveira se apessoou muito à Caspessin, tinha-o como um filho, já que o destino cuidou de nao dar-lhe filhos, tomou-o como tal, cuidava dele como um pai e sofria com as enrascadas que se metia. Chamava-o pela alcunha “Menino” e isso fazia com que a raiva de Tamarindo sobre o “Menino” aumentasse a cada dia.
(Tam)_Caspessin? Oh vagabundo!!! Cadê você animal?
Tamarindo procura Caspessin por todo o pátio da delegacia, quando vai à cozinha o encontra encochando Shirley Maria, faxineira da delegacia, coincidentemente mulher de um detento. Tamarindo dá-lhe um tapao na cabeca e diz: ( Tam )_Pôrra Caspessin, cê tá louco moleque? Se o marido dela sabe disso, cê tá fudido, vamô logo que o Dr.Oliveira está nervoso.
(Cas)_O que ele quer? Eu já lavei as mixiricas, o que ele mais quer de mim?
(Tam)_Sei lá!!!! Oh menina! Arruma essa roupa e vá trabalhar!!!Esse negócio ainda vai dar merda.
Após apresentacao à frente do doutor os dois recebem a notícia:
( Dr.O )_Tamarindo e Caspessin acabo de receber uma missao muito importante e vocês vao me acompanhar, vamos fazer a seguranca pessoal do governador e sua família, eles vao sair de férias.
(Tam)_Mas a seguranca do governador nao é responsabilidade da polícia militar?
(Dr.O)_Seria Tamarindo, acontece que o “homem” só confia na gente, portanto meu amigo “Missao dada é missao comprida”.
(Casp)_Ôpa! A filha do governador é uma gost…
Antes que Caspessin termine a frase doutor Oliveira se levanta, olha bem para o “menino” e diz:
(Dr.O)_Caspessin, preste muita atencao para o que vou lhe dizer, preste muita atencao mesmo pois nao quero ter que dizer isso novamente. Nao seja louco de se meter com a filha do governador, se isso ocorrer eu lhe capo, entendeu? Eu, pessoalmente, lhe capo.
Caspessin ficou mudo, nem piscava os olhos, neste momento sentiu-se no ambiente um forte odor, Tamarindo olha para Caspessin e diz: ( Tam )_Pôrra Caspessin, cagou nas calcas?
Nao consta nos anais da delegacia que em algum dia Dr.Oliveira teria sido tao duro com Caspessin, devido a isso o menino cagou nas calcas.
Chega o trágico dia, em frente a delegacia encosta um carro, modelo importado, de onde sai Praxedes, o delegado que irá “render” Dr.Oliveira, de forma momentânea de seu posto. O homem sobe a escadaria, passa por Caspessin que nao entende nada, passa por Tamarindo, abre a porta que leva à sala de Oliveira e às celas, quando imaginava-se que o cidadao seguiria para a sala do delegado, toma outro rumo e entre na área das celas.
( Prax )_Vamos acordar seus vagabundos!!!! Assim grita Praxedes.
( Prax )_Agora, aqui no Jabaquara, quem manda é o papai aqui, quem quiser regalias vai ter que abrir os bolsos.
O recado da corrupcao estava dado, mas o que o Praxedes nao sabia é que Caspessin o havia seguido e o havia ouvido.
Praxedes volta a tomar o rumo do sala do delegado, entra na mesma e encontra-se com o dono da cadeira.
(Prax)_Bom dia, Oliveira!
(Dr.O)_Bom dia para quem?
Neste momento os dois caminham em rota de colisao, parecia aqueles duelos do velho oeste americano, param um a frente do outro, o silêncio permanece por alguns instantes, o ódio impera nos olhares de ambos quando o silêncio é quebrado pela entrada de Caspessin na sala.
(Casp)_Dr.Oliveira! Dr.Oliveira! Preciso lhe contar sobre…
(Dr.O)_Agora nao garoto, agora nao.
(Casp)_Mas doutor, eu ví…
(Dr.O)_Já disse que agora nao, depois conversamos, feche esse porta e nao deixe entrar mais ninguém.
Ninguém sabe, exatamente, o que Caspessin contaria, tudo indica que seria um relato do que ouviu das celas, mas…
(Dr.O)_Praxedes, preste muita atencao no que vou lhe dizer, passei anos da minha vida buscando fazer do bairro do Jabaquara um lugar de gente decente, um lugar limpo, um lugar respeitado. Entenda que isso aqui nao é sua jurisdicao, você estará aqui temporariamente. Nao faca da minha o lixo que é a sua. Passarei apenas 10 dias fora, portanto muito cuidado, conheco muito bem sua clientela.
Praxedes olha para o lado, abre um sorriso irônico e diz:
(Prax)_Oliveira nao se preocupe, vou transformar esse seu pedaco sem graca de Sao Paulo em um lugar muito mais animado, você nem vai reconhecer quando voltar. Se é que vai voltar.
Dr.Oliveira, por pouco, nao joga fora toda a sua história de homem respeitador das leis, coloca a mao em seu “coldre” de legítimo couro argentino e, por quase nada, nao sacou de seu 38. Como muita raiva diz:
(Dr.O)_Você está me ameacando Praxedes? Você preparou alguma para mim? Saiba que eu vou voltar e saiba que um dia termino com sua raca, ainda lhe mandarei ao cárcere. Agora saia da minha frente que eu preciso exercer meu trabalho.
Praxedes, sem dizer uma única palavra, abre caminho para o delegado sair.
Dr.Oliveira, Tamarindo e Caspessin entram na viatura, ligam o giroflex e , antes de sair, Dr.Oliveira diz para Tamarindo: (Dr.O)_Tamarindo, algo me diz que teremos muito trabalho ao voltar. Caspessin, vamos embora garoto, o governador nos espera.
Cantando pneus a velha viatura de Dr.Oliveira segue rumo ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.
A viatura ainda era vista, no final da rua, quando um Opala ano 78, de vidros filmados, sem placas encosta na frente da delegacia, ao abrir as portas sente-se no ar um forte cheiro de maconha, descem 4 pessoas, com caras nada amigáveis e adentram a chefatura.
Escrito por Fernando Palma
Escrito por Fernando Palma
Escrito por Fernando Palma