Professor Castilho – Cuidado com os Vietcongs

Novembro 24, 2009

Cinco e meia da manhã, o dia ainda por amanhecer, abre-se a porta da sala de aula e com cuidado um vulto adentra, fecha a porta, não acende a luz e senta-se na cadeira do professor. A escuridão mantém-se até que o fósforo riscado e aceso acende o cigarro. Vê-se apenas a ponta do cigarro acesa e o vulto calmamente saboreia o silêncio e a escuridão da sala. Aos poucos vê-se o Sol nascendo e a luz que rompe as janelas da sala mostra a figura de um homem relaxado, calmo, tranqüilo. A luz que entra apresenta o novo professor de tecnologia, Prof. Castilho, de pernas cruzadas, costas dadas à porta o professor observa a beleza de mais um nascer do Sol, neste momento a porta se abre, entra o primeiro aluno, ao professor lhe diz bom dia, Castilho ainda de costas, mal olha para o aluno e retribui o cumprimento. O aluno então senta-se na primeira fila, arruma suas coisas de forma organizada, coloca seus óculos de lentes fortes e, ao olhar para o relógio, faz um comentário:_Chegou cedo hein professor? Sempre sou o primeiro a chegar, sempre venho à aula com pelo menos 45 minutos adiantado, não gosto de me atrasar.

Castilho então vira-se para o aluno, ainda mantendo a face relaxada e tranqüila e diz:

_Vamos então começar a aula?

O aluno, de certa forma surpreso, responde:

_Mas professor, ainda é muito cedo, muitos ainda estão por vir.

Neste momento o professor que até então estava relaxado e tranqüilo, calado senta-se e demonstra certa preocupação, após alguns minutos diz:_ Bem, vamos esperar então.

O segundo aluno entra na sala, Castilho nem vira a cabeça para cumprimentar, o terceiro vem logo depois, Castilho começa a suar, assim chega o quarto, o quinto e outros vêm chegando, a sala então fica cheia e começa o primeiro dia de aula do Professor Castilho.

Depois de todo o burburinho, alunos se cumprimentando, cada um senta em sua cadeira, olha para a mesa do professor e…_Cadê o professor? Grita um lá do fundo.

O “ceguinho” que estava sentado na primeira fila diz:_ Ué, mas estava aqui agora mesmo, foi só virar para trás um pouquinho para pegar uma caneta na mochila e o homem sumiu.

Quando que, um mais atento, observa:_Olha, o professor está debaixo da mesa.

Os alunos olham para a fresta da mesa e observam dois olhos catatônicos.

_Professor, o que o senhor está fazendo aí?

Não há resposta.

_Professor, professor, o senhor está passando bem?

Então Castilho responde:_Abaixe soldado, abaixe, quer tomar um tiro na cabeça? Eles chegaram soldado, estão por todas as partes, abaixe é uma ordem.

Os alunos não estavam entendendo nada e logo de debaixo da mesa vem um grito:_Soldados, fechem as cortinas, não podemos ficar expostos ao inimigo.

O professor não piscava, estava totalmente alterado, quando um aluno, de origem oriental, chegou perto da mesa para tentar tirar o professor dali, Castilho, com uma presteza que só os soldados mais gabaritados possuem, tomou o menino de assalto e, com uma faca encostada em seu pescoço diz:_Te peguei Vietcong, te peguei maldito. Desta casamata você não sai vivo.

Após ter feito refém o filho da pasteleira da feira do bairro, menino muito estudioso que mantinha o sonho de ser engenheiro e que a duras penas conseguira uma vaga de bolsista, a classe assustada correu pelos largos corredores da escola.

Com todo aquele barulho, Doutor Aureliano, diretor do ICE ( Instituto Capixaba de Ensino ) levantou-se de sua larga e luxuosa cadeira de couro e seguiu em busca da origem de tamanha rebelião. Após muitas perguntas e poucas respostas, Dr. Aureliano e sua secretária, Dona Mirtes, chegara a porta da sala de aula onde deveria ocorrer a primeira aula do professor Castilho. Com a classe toda às escuras não perceberam, em um primeiro momento, Castilho e o aluno sob a mesa, mas ao primeiro grito de socorro do menino, voltaram e acenderam as luzes, neste momento Castilho grita de forma insana:_Eles estão chegando, cada vez mais próximos, já vejo as luzes dos sinalizadores.

Dr. Aureliano tenta conversar com Prof. Castilho:_Professor, o que está acontecendo aqui?

Neste momento toda a escola já foi evacuada, imprensa e tropa de elite da polícia capixaba já se encontram nos arredores.

Pelo megafone ouve-se a solicitação de um possível negociador:_Professor, solte a criança e saia, não lhe faremos mal. Professor, solte a criança, se invadirmos será pior.

Certamente seria pior, já que a polícia capixaba não estava acostumada e tampouco preparada para essa situação, a tragédia estava se anunciando.

Não vinha resposta de dentro da sala quando que, pela avenida principal, encosta um Jipe verde, notoriamente militar, saltam dois soldados fortemente armados dando escolta ao general que vinha logo atrás.

_Calma, não façam mal a ele, eu o conheço, eu o treinei e sei do que é capaz. Deixe-me conversar com ele, deixe-me entrar.

O chefe da polícia retruca mas permite o acesso do general, assim que chega a porta da classe o general diz:_Major Castilho?

Castilho ouve a voz do comandante e responde:_Comandante Arouca, é o senhor? Venha para a casamata comandante, os vietcongs estão por todos os lados, isso aqui está repleto deles, inclusive já tenho um refém aqui comigo.

_Castilho, mantenha a calma meu filho, a guerra já acabou, você já está de volta ao Brasil, não tem mais do que se preocupar.

_Mas Comandante e esse vietcong? Se a guerra já acabou o que ele está fazendo aqui?

_Castilho, esse menino é um pobre japonês, filho da pasteleira, solte-o e venha comigo.

Depois de muita conversa o menino recupera sua liberdade e professor Castilho sai de debaixo da mesa, neste momento entram na sala de aula alguns enfermeiros do exército que, após aplicar-lhe um sedativo, deitam-lhe em uma maca e saem pelas portas do fundo do colégio.

Dr. Aureliano encontra-se com o General Arouca e pergunta:_Mas general, o que aconteceu?

_Doutor, o Castilho é um ótimo professor, fantástico eu diria, mas tem uma fobia extrema quando se vê ao redor de muita gente e isso o leva aos tempos de guerra, é preciso ter calma e paciência. O senhor precisa dar outra chance a ele mas não se esqueça, não terá problemas desde que Castilho tome sempre sua medicação, enquanto estiver medicado, não haverá problemas.

Enquanto o general sobe em seu jipe doutor Aureliano ao lhe cumprimentar diz:_Assim será general, assim será, em respeito ao pai de Castilho uma nova oportunidade será dada. Assim será.

Dr. Aureliano retorna a sua sala enquanto dona Mirtes informa aos alunos que voltem às suas casas. As aulas, neste dia, estão suspensas.


Professor Castilho – Entrevista de admissao

Outubro 13, 2009

Toc, Toc, Toc

_Dr. Aureliano? Posso entrar?

_Bom dia Dona Mirtes, sim, sim, entre, por favor. Algum problema?

_Não Doutor, nenhum problema, é que está aqui um senhor que veio para a entrevista à vaga deixada pelo falecido Professor Álvaro.

_Ah sim, é verdade, me parece Prof. Castilho, se não estou enganado, me dê uns cinco minutos e mande-o entrar, por gentileza.

_Sim Doutor, como queira.

Dona Mirtes é secretária do Doutor Aureliano há muitos anos, é um cargo passado de mãe para filha, sua mãe foi secretária do Dr. Aurélio, pai e fundador do Instituto Capixaba de Ensino ( ICE ), falecido há anos, desde então Dr. Aureliano assumiu a diretoria do Instituto e Dona Inês, mãe de Dona Mirtes aposentou-se dando lugar a filha mais velha. As coisas por aqui acontecem assim, uma escola de mais de 50 anos, muito tradicional, os cargos passam de pai para filho e posteriormente para netos. Respeita-se muito isso, uma escola com preceitos religiosos muito firmes e que tem em seu histórico alunos da mais alta classe Capixaba, pelo ICE passaram governadores de Estado, Deputados, Senadores, grandes médicos, engenheiros e Advogados. Você não faz parte da nata da sociedade se não estudou no ICE. Assim é Dr. Aureliano, faz questão que assim seja e que assim será. Seu filho, jovem um pouco disperso, apesar dos sérios problemas que tem passado com bebidas, jogos de azar e drogas, estuda no Instituto e é a única possibilidade de continuidade da linhagem, devido a isso o diretor solicita a todos os professores que sejam muito rígidos com o rapaz.

Toc, toc, toc

_Dr. Aureliano? Posso entrar?

_Professor Castilho, se não me engano?

_Sim Doutor, Professor Major Arnaldo Castilho de Albuquerque, leciono, com muito prazer e carinho, a matéria de Ciências e Tecnologia.

_Interessante professor, desculpe o que vou dizer, por favor não se ofenda, o senhor ser militar, é um ser tão franzino e aparentemente tão frágil, jamais diria que o senhor é militar.

_Nao precisa se desculpar doutor, eu sou assim mesmo, uma pessoa muito tranqüila, deve ser meu sangue capixaba falando mais alto.

 _Estou vendo aqui em seu currículo, o senhor é filho do Coronel Albuquerque, muito bom, fui muito amigo do seu pai, fomos colegas de turma, aqui no Instituto mesmo, mas o senhor jamais estudou aqui, não?

_Dr. Aureliano, infelizmente não tive esse prazer, estudei em bases militares, meu querido e falecido papai era um militar muito requisitado, sempre mudávamos, vivíamos em bases militares diferentes e, em sua maioria, fora do país. Assim foi durante a segunda guerra, quando nasci, assim foi durante a guerra do Vietnã, o Brasil, sendo um país amigo dos Estados Unidos da América, mantinha militares brasileiros em bases Americanas, eu nasci em uma base americana, tenho dupla nacionalidade, sou norte americano e brasileiro, mas fiz minha carreira no exército americano.

_Faz muito tempo que o senhor saiu do exército Professor… Desculpe como o senhor prefere que lhe chame? Professor ou Major?

_Doutor, o senhor é um homem muito gentil, estou licenciado há pouco do exército, estava até o final do ano passado no front de batalha no Iraque, mas tive um pequeno problema de saúde e tive que me afastar, lá me chamavam de professor, apesar da minha patente. No exército me formei, no exército fiz meu mestrado e pós-graduação, sou professor em Ciências Tecnológicas e Pós-graduado em Tecnologia Bélica. Faço, neste momento, um trabalho específico sobre Tecnologia em Minas Terrestres, essas por sinal, são minhas especialidades. Portanto pode me chamar de professor, Professor Castilho.

_Sim, muito bem, Professor Castilho, percebo que o senhor é um homem muito educado e gentil, apesar da frágil aparência imagino ser severo como condiz a um militar, o que para mim é muito bem vindo, e muito bem preparado para a vaga, portanto a vaga é sua professor, pode começar amanha, caso deseje, mas preciso fazer-lhe uma confissão, temos uma turma aqui, da qual meu filho faz parte, que é extremamente arredia, tome cuidado com ela, perdemos ótimos professores por causa dessa turma, inclusive o professor que preenchia a vaga a qual o senhor postula agora, falecido em plena sala de aula.

De fala mansa e tranqüilo, professor Castilho vai saindo da sala e diz:

_Nao se preocupe doutor, amanha começaremos as aulas. Até amanha.

_Até amanha professor, até amanha.

Dr.Aureliano pega seu telefone sobre a mesa e fala com sua secretária:

_Dona Mirtes, acho que esse não durará dois dias, acho melhor começar a procurar outros professores, com esse corpo franzino e fala mole, não sei não. Vamos aguardar, vamos ver o que poderá acontecer.